27 de maio de 2011

Paulo de Tarso e as transformações subjetivas








A história de Saulo de Tarso, (posteriormente Paulo de Tarso) é bastante conhecida do universo cristão, pois esse apóstolo foi ícone do cristianismo nascente, sendo o responsável por levar o evangelho de Cristo ao mundo dos Gentios.


De forma bastante suscinta: Saulo de tarso nasceu numa família milionária de fariseus, e durante sua infância e sua mocidade preparou-se com esmero para ser um Doutor na Lei de Moisés, recebendo refinada educação nesse sentido. Seu futuro era promissor dentro da comunidade que vivia, pois desde o nascimento introjetou os valores que os pais lhe transmitiram.


Durante uma viagem à Damasco (Siria) ele tem uma visão de Cristo e desse ponto em diante, seus valores mudam. Ele passa a rejeitar toda a educação farisaica recebida na infância e passa a seguir os preceitos do cristianismo, trocando seu nome para Paulo de Tarso.


Tratando disso em torno da teoria Socialização Primária e secundária:


Todo individuo nasce com predisposição à socialização, mas não nasce em sociedade.


Saulo nasceu no âmago da comunidade farisaica da época , e como todo individuo, sua socialização foi feita toda em torno da educação.


A interiorização, processo que abrange a compreensão dos semelhantes e apreensão da realidade social, deu-se através não somente através dos pais, mas dos educadores judeus, doutores do farisaísmo, que desde a mais tenra idade se incumbiram de transmitirem-lhe os valores da comunidade que viviam. Dessa forma, Paulo foi apreendendo a realidade social, pois vivia numa sociedade exclusivista, na qual seus semelhantes eram as pessoas que tinham não somente a mesma tradição religiosa, como também o mesmo padrão de educação. Somente após a interiorização deste sistema de valores é que Paulo tornou-se membro dessa sociedade (Mas não podemos precisar a época em que isso se deu), pois a socialização ampla e consistente é entendida como a inserção de um individuo numa sociedade.


Receber uma identidade implica na atribuição de um lugar especifico no mundo. Assim, Saulo ficou conhecido como o garoto promissor, que um dia seria io Doutor da Lei de Moisés, isso porque a socialização primária cria abstrações progressivas para os papéis e atitudes em geral.


Os outros significativos são os principais agentes de conservação da sua realidade subjetiva e atuam de forma a confirmar a identidade que este pode ou não gostar. No caso de Saulo: os outros significativos são seus pais, que lhe transmitiram o respeito pela lei moisaica. Enquanto ele atendia os anseios da sociedade em que vivia seus pais (Outros significativos) o apoiavam, custeavam suas despesas e tinham orgulho do filho brilhante que fascinava os mais exigentes Doutores da época. No entanto, a partir de sua conversão ao cristianismo seu pai passou a negar-lhe a existência, rompendo assim seus vínculos afetivos e paternais, deixando de confirmar a identidade que Saulo, agora Paulo assumira.


Devemos considerar aqui que somente é possível ao individuo manter sua autoidentidade em um meio que possa confirma-la. Assim seu pai não podia confirmar essa nova identidade do filho. Para esse pai, Saulo estava morto e Paulo não existe.


A socialização implica na possibilidade de uma realidade subjetiva, mas essa realidade nunca é totalmente socializada.


Talvés guiado por essa realidade subjetiva, Paulo foi procurar seu pai após sua conversão ao cristianismo.


As alternações são transformações subjetivas que exigem processos de re-socialização, que assemelham-se à socialização primária, pois devem reproduzir consideravelmente a identificação afetiva.


Após a recusa do pai em reconhecer a sua nova identidade, Saulo teve que seguir outras veredas em busca de um novo caminho. No entanto essa adaptação foi uma fase dificílima em sua vida, pois ele fora rejeitado não só pelo pai, mas pelos outros generalizados (Rabinos, amigos, etc.), e não fora aceito pela comunidade cristã imediatamente (uma atitude bastante natural por parte destes, considerando que Saulo havia provocado muitos males aos cristãos).


Assim, ele se viu durante um longo período em busca de uma nova identidade, até que lhe fosse possível alternar, passar pelo processo de re-socialização em outra sociedade.


As alternações exigem a transformação da realidade subjetiva, pois é fundamental que haja a reprodução da dependência emocional vivida na infância em relação a outros significativos. Mas onde Paulo iria encontrar esses novos outros significativos uma vez que estava desacreditado?


A grande exigência da alternação é a existência de um aparelho legitimador, portanto sem isso, Paulo jamais poderia vivenciar sua nova identidade, sua condição de cristão. Foi então buscar essa legitimação no seio do cristianismo, tentando aproximar-se dos antigos apóstolos.


Uma vez aceito por esse aparelho legitimador, Paulo entra no processo de reinterpretação de seu passado, que não é a sua negação, mas a harmonização com a verdade. Isso foi fundamental na sua conversão, pois uma das máximas do cristianismo é “andai com a verdade e a verdade vos libertará”. Para ele, abandonar os pais teve o sentido de abandonar o passado, afinal os outros significativos também são reinterpretados.


Na ressocialização, o passado é reinterpretado para se harmonizar com a realidade presente, havendo uma tendência a retrojetar no passado elementos que não eram subjetivamente acessíveis naquela época. Assim pode compreender que os males que causou às pessoas lhe pareciam acertos dentro do contexto passado, e pode finalmente perdoar a si mesmo, reconstruindo uma nova realidade.


Resumindo: na re-socialização o foco é na realidade PRESENTE.


Na socialização secundária o enfoque é reconstruir o PASSADO.

Textos sobre Relacionamento

Widget Recent Posts

Artigo da semana