28 de junho de 2012

Harry Poter e a psicologia (parte 2)


Conforme eu havia prometido há um tempo atrás, estou dando continuidade ao tema "Harry Potter e a Psicologia".

Chama bastante atenção o número crescente de adultos que é fã do bruxinho e de outros personagens. Pra quem não sabe, a saga começou quando a J.K. Rowling deciciu escrever um livro de estórinhas para suas crianças. Esta iniciativa ganhou corpo e veio parar nos cinemas. Dizem por aí que ela foi rejeitada por mais de 12 editoras.. (sinceramente? azar o delas, rs).

Bem, mas vamos ao que interessa..

A saga trata da história de Harry Potter, um garoto que perdeu seus pais vitimados pela maldade de Lord Voldemort, e é criado por seus tios "trouxas" (aqueles que não são bruxos) na companhia de seu primo Duda, um garoto grosseiro e mimado. Neste ambiente, Harry é tratado com todo desdém e desinteresse típico dos contos de fadas:  Faz serviços domésticos, come pouco é mal alojado (dorme embaixo da escada), não participa de festas etc.

Até que num dia o garoto é passa a frequentar a Escola de Magia e Bruxaria de Howgards, onde fará novas amizades e muitas inimizades. Partindo deste ponto, pretende-se aqui levantar algumas hipóteses sobre as relações dos personagens e das diferentes classes sociais neste universo.

A saga deste garoto retrata de modo geral o desamparo que atravessa nossa sociedade pós moderna, em busca de substituições para o aconchego materno.




Harry Potter e A pedra filosofal

Começamos por Draco Malfoy,  personagem líder da Sonserina, casa que abriga os alunos "maus e poderosos" e se apresenta a harry logo na chegada, deixando claro que este é um grupo diferenciado e que ao qual poderia pertencer desde que se comportasse como ele.  Dada a Recusa de Harry em aceitar tal proposta eles tornam-se rivais. (Bastos & Pinheiro, 2008).

A seletividade também fica evidente na saga, especialmente quando as crianças são escolhidas pelo chapéu seletor:

O episódio do Chapéu Seleccionador que hesita em defini-lo como um Gryffindor, e como tal corajoso e bom, ou um Slytherin, desleal e mau, deixa marcas profundas na sua personalidade. Ele sente dúvidas a seu respeito e, frequentemente, sente-se perdido dentro do seu próprio grupo, os Gryffindors.

Apedra filofosal produz a imortalidade, simbolizando  as tentativas vencer a morte e trazer riquezas. Sobre isto Dumbledore,explica a Harry:
As duas coisas que a maioria dos seres humanos escolheriam em primeiro lugar. O problema é que os humanos têm o condão de escolher exatamente as coisas que são piores para eles. (Rowling, 2000b, p. 253)

Harry Potter e a Câmara Secreta (Rowling, 2000a)

Nesta saga é necessário descobrir o mistério da abertura da câmara secreta de onde o Basilisco, um temido mostro conseguiu escapar.

Naturalmente, é Harry quem luta contra o monstro e o derrota. Nas mais variadas histórias, desde os contos de fadas, mitos, peças dramáticas e histórias modernas, o herói típico é aquela figura simbólica que faz o que precisa ser feito, pois sabe que esse é o seu destino. Ainda que não lhe agrade, muitas vezes, o rumo que toma, não há outra saída para ele se não tomá-lo. (BASTOS & PINHEIRO, 2008).



Esta câmara secreta corresponde aos nossos conteúdos latentes, fora do campo da consciência imediata, ou em linguagem Freudiana " o Inconciente" que guarda todo o conteúdo reprimido, que as vezes é tão feio quanto o basilisco, mas precisa ser vencido de alguma forma, mesmo à custa de sacrifícios. Caso contrário ele continuará sua trajetória de destruição. Portanto são duas tarefas difíceis: abrir a câmara secreta e matar o mostro.

Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban

Nesse livro, existe a inserção de personagens novos e significativos, que darão novo rumo a história e á vida de Harry.
Um deles, digno de menção em primeiro lugar é o prisioneiro de Askaban, o injustiçado Sirius Black, padrinho de Harry Potter que foi para a prisão acusado por um crime que não cometeu - ter matado os pais de Harry. Depois que este mal entendido é desfeito, Harry,  há o estabelecimento de um vínculo afetivo entre os dois e no final, Rony e Hermione colaboram para que Sirius consiga fugir.

O que nos chama atenção nesta história é a presença dos Dementadores que:

roubam a força vital, sugam as boas lembranças. Depois de encontrar um deles, uma pessoa se sente como se nunca mais fosse ser feliz na vida. Ser influenciado por eles assemelhase a viver num pesadelo do qual não se consegue acordar. Mas é preciso esclarecer que eles não oferecem um conteúdo que nos faça sofrer, apenas criam o clima para que fiquemos reduzidos a nossa pior face. (CORSO & CORSO, p. 265, apud (BASTOS & PINHEIRO, 2008).

Pode-se notar aqui uma semelhança dos dementadores com a melancolia que para Freud (1917) pode ser caracterizada como uma inibição

enigmática porque não podemos ver o que é que o está absorvendo tão completamente. O melancólico exibe [...]uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala.

A descrição da proximidade de um dementador feita pelos personagens é que "como se nunca mais fosse me sentir feliz novamente".


Na história, as pessoas que foram "beijadas" pelo dementador têm sua alegria sugada e algumas vezes isto é feito de tal forma que a pessoa é levada a viver num estado vegetativo e isto nos remete mais uma vez à apatia que é sentida pelas pessoas em estados depressivos.

Alguns objetos se estivem a venda seriam sonho de consumo de qualquer mortal pós-moderno; A capa da invisibilidade, que permitiria ao individuo agir com privacidade e o vira-tempo que favoreceria a execução de atividades simultâneas em lugares diferentes.
Harry Potter e o cálice de Fogo

Deste ponto em diante, a história fica mais densa, com o surgimento de personagens secundários que corporificam a imagem do mau na fase adulta. Ainda são notórias as rixas entre Harry e outros garotos de sua idade, mas não é este o foco.

O desenrolar da história nos trás conteúdo de traição, morte, enigmas que só serão elucidados mais adiante.

No entanto, o cálice de fogo que seleciona os competidores para o Torneio tribruxo, nos remete à imagem do Superego, o juiz implacável que não dá liberdade de escolha, colocando as coisas no seu devido lugar. É este juiz que sempre é consultado quando se deve encarar tarefas desafadoras.

Harry Potter e a Ordem da Fenix (Rowling, 2003),

Nesta fase Harry e os amigos já estão no meio da adolescência e fica clara a disputa de espaço entre estes e os adultos, quando são impedidos de participar de uma reunião secreta da Ordem. Mas, dando asas a um comportamento tipicamente adolescente, estes conseguem se opor às regras estabelecidas e ouvem parte da conversa a partir de um mecanismo desenvolvido para este fim.

O mesmo ocorre na esola onde neste ano letivo terão que se deparar com a figura endurecida de Dolores Umbrigde, que galaga todos os degraus do mundo acadêmico, chegando à diretoria de Hogwards, posto até então ocupado por Dumbledore.

Durante sua gestão, todas manifestações de insatisfação  e flertes nos corredores são reprimidas fortemente e novas leis surgem para impor a "ordem".

O curriculo escolar também sofre alterações, mas infelizmente para pior. Os livros de Defesa Contra as Artes das trevas, passam de práticos a teórico-básico-iniciante, o que deixa os quintanistas frustrados.

Aqui eu vou abrir um parênteses e fazer uma cmparação, não com nossos mecanismos psicológicos, mas com a educação de  modo geral. Já faz alguns anos que estamos acompanhando a decadência do nosso ensino, onde conteúdos importantes são subtraídos, ou resumidos a ponto de perderem sua essência. Os alunos não são estimulados a pensar, são meros "copiadores" e isso em qualquer nível da educação.  Por isso:

Qualquer semelhança com os movimentos estudantis de revolta, preparados em reuniões secretas, de onde muitas vezes era preciso fugir correndo, como fazem as nossas personagens, não pode ser mera coincidência. É como se Harry Potter questionasse nesse momento a aceitação passiva do mundo contemporâneo, assistindo às corrupções, misérias e violências como um espectador televisivo, amalgamado à tão comentada cultura do espetáculo, em que os fatos se tornaram notícias. (BASTOS & PINHEIRO, 2008).

Uma personagem que entra na trama nesta altura é digna de menção: Luna Lovegod, uma garota diferente das outras. seu comportamento é aparentemente abstrato demais para a compreensão de quem vive no mundo concreto, msmo em se tratando de um mundo só de bruxos. Luna parece estar sempre fora da realidade, distante, mas não é bem assim. Na verdade é uma personagem que olha para os fatos a partir de um outro ângulo, ou talvez seja apenas uma vítima da simplificação conceitual dos demais. Em determinado momento, ela está lendo uma revista de cabeça pra baixo, e todos a olham como se fosse "louca. Ninguém se deu ao trabalho de perguntar o motivo que a levou a inverter a revista. Se tivessem feito, saberiam que a garota estava lendo a resposta de um jogo de runas que estava propositalmente invertido na página.

Essa redução conceitual é algo frequente em nosso meio. Existe uma tendência a categorizar pessoas por recortes de seus atos ou palavras, sem levar em conta o todo. Daí para o preconceito a distância é pequena demais.












BASTOS, Glória; PINHEIRO, Maria da Graça - Entre a realidade e a ficção: percepções sobre o universo de Harry Potter. In Congresso Internacional em Estudos da Criança, 1, Braga, 2008 - "Infâncias Possíveis, Mundos Reais". Braga : Universidade do Minho, 2008. ISBN 978-972-8952-08-2.

FREUD, Sigmud. Luto e Melancolia. (1917) VOL XIV – PG 269-291

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