16 de outubro de 2013

Ressentimentos, rancores e vinganças

Ressentir é sentir novamente a dor de uma situação, onde o indivíduo teve seus desejos negados. As vezes, por falta de alternativas adequadas para a elaboração do sentimento negativo, é comum que a pessoa busque reparação dos males que lhe afligem, causando aos outros aborrecimentos semelhantes. 

Para Maria Rita Khel, o ressentimento é "uma constelação afetiva que serve ao homem contemporâneo, entre as exigências e configurações imaginárias próprias do individualismo" .

Observando esta colocação, podemos pensar que o ressentimento é subproduto do egocentrismo, que permite ao individuo imaginar-se como vítima das circunstâncias (ou das pessoas), posicionando-se como aquele que deve receber muito e doar pouco.

Existem outras formas de entender esta colocação (mais adiante), mas gostaria, neste momento de fazer um recorte e me estender sobre o postulado de Khel: vivemos numa sociedade capitalista, onde o individualismo é propagado de todas as formas, em todos os meios de comunicação, as vezes de forma aberta, as vezes de forma velada. Isto pode levar algumas pessoas a situações de disputa, para obter vantagens sobre seus pares, sejam elas financeiras, de status, ou mesmo afetivas.

Quando esta pessoa se depara com algo, ou alguém que não está disposto a abrir mão de seus interesses (materiais ou subjetivos), para atender-lhe os anseios, é possível que sinta-se  prejudicada. Mas seu egocentrismo não permite levar nenhuma desvantagem! É preciso partir para a desforra! Neste ponto entra em cena o ressentimento. Ao invés do indivíduo buscar alternativas saudáveis para lidar com a frustração, busca dolorosas formas de reparação.

Podemos citar como exemplo a pessoa que foi rejeitada por alguém para viver um relacionamento afetivo: em casos onde o ressentimento impera, pode existir uma busca pela proximidade, pela intimidade, potencializada pela rejeição e pelo desejo de reparar uma situação que considera ultrajante. Para atingir estes fins é comum que lance mão de meios (por vezes) sórdidos, emitindo comportamentos provocativos para mobilizar a atenção do outro. Isto é comum nos divórcios litigiosos. Fabichak (2010) cita o exemplo das pessoas que mesmo após a separação querem manter o vínculo, mesmo que seja o da briga. Tais pessoas tendem a buscar grandes reparações, por meio de pequenas provocações, motivados pelo ressentimento que insiste em imperar, afinal "ressentir-se é atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer" (KHEL, p. 11).

É comum que o ressentido coloque a culpa por tudo o que acontece no outro: é o outro que é egoísta, o outro que "não sabe fazer nada direito", é o outro que é "imaturo", etc..

Ao colocar a culpa no outro, o ressentido está na verdade buscando formas de reparação, pois estas provocações visam uma forma de satisfação pessoal, que em última instância poderá colocar o outro sob seu poder.

Como lidar com isto?
Não é fácil, na verdade, e não existe uma solução pronta. As pessoas mais criativas podem encontrar forma de canalizar os sentimentos negativos para finalidades mais nobres. As menos criativas, que têm dificuldades de elaboração ou mesmo de tomar consciência sobre seus atos, sugiro que busque ajuda psicoterápica.





FABICHK, Cibele. Sexo, amor, endorfinas e bobagens. São Paulo, Novo Século: 2010.
KHEL, Maria Rita. Ressentimento.São Paulo. Casa do Psicólogo: 2011.