21 de dezembro de 2013

Segue teu destino


Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias

(Fernando Pessoa)

Parece fácil seguir o conselho de Fernando Pessoa, mas a prática indica que existem inúmeras dificuldades a ser vencidas antes que um indivíduo consiga se decidir a "seguir seu destino".

A primeira dificuldade surge em reconhecer o que lhe pertence e o que pertence ao outro. 
"Como saber se este caminho é meu e não do outro? Qual meu caminho? Pra onde devo ir?"

A segunda dificuldade surge quando nos se pergunta:
"Por que hei de seguir o meu caminho, deixando o outro seguir o dele?

E a terceira dificuldade é indicada pela afirmação:
"Não posso seguir o meu caminho sem ninguém. Preciso de alguém ao meu lado"

Podem existir outras dificuldades, mas neste momento pretendo fazer um recorte deste assunto, pontuando sobre os três tópicos escolhidos.

*-*

A primeira dificuldade esbarra na confluência.
Apenas para esclarecer, Confluência é "um estado de não-contato, de fusão por ausência de contato" (SINGER e SINGER, 1995). 
Trocando em miúdos: A confluência surge quando há fusão de interesses, gostos e atitudes com alguém muito próximo, resultado na incapacidade progressiva de tomar as próprias decisões. As pessoas tendem a agir como se fossem uma só.
Este modo de se comportar confluente remete às relação mãe-filho, que com o passar dos anos tende a modificar-se, tornando-se uma relação mais segura e consistente. Porém, isto não ocorre sempre e algumas pessoas chegam à idade adulta dependendo do apoio do outro na tomada de decisões (simples, as vezes). E como não conhecer outra forma de se comportar, passam boa parte da vida buscando alguém com quem possam viver em confluência, uma vez que não aprenderam a tomar as próprias decisões.

A segunda dificuldade está relacionada com as relações de controle.
"Por que hei de seguir o meu caminho, deixando o outro seguir o dele?
Como se viver a vida alheia fosse a meta da própria existência. Viver para o outro, em função do outro, controlar o outro, se apoderar do outro, não dando a este outro a chance de vivenciar suas escolhas. É o extremo oposto da confluência. É a invasão do outro. É a implosão das barreiras de contato que existem para proteger a individualidade alheia.
Este comportamento invasivo pode estar relacionado com o medo de deixar o outro seguir seu rumo e perdê-lo, numa curva do caminho. Geralmente estas atitudes controladoras estão relacionadas com a própria insegurança, afinal é preciso controlar o outro para garantir a própria felicidade.

A Terceira dificuldade se relaciona com o temor da solidão.
Meso quando não há necessidade de ser controlado ou controlar, para algumas pessoas, seguir o próprio caminho pode significar fazer escolhas diferentes dos demais, resultando em trilhar caminhos diferentes das pessoas queridas. Novos caminhos indicam a possibilidade de novos relacionamentos, de novos modos de pensar, de agir, novas amizades, novos amores. Parece um contrassenso, mas para algumas pessoas isto pode ser algo realmente doloroso, por que indica uma ruptura da zona de conforto.

*.*

 Por isso, "seguir o teu destino" não é algo fácil.Todas as escolhas são tortuosas e trarão perdas e ganhos.





SINGER, A; SINGER, S. Gestalt: uma terapia do conato. São Paulo, Summus: 1995


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