7 de janeiro de 2017

A dificuldade de relacionamento - visão social


A dificuldade de relacionamento - visão social


No Post anterior (clicar aqui), tratamos da Dificuldade de relacionamentos com enfoque individual. No entanto o tema é amplo, portanto difícil de ser esgotado.



Psicologa Sulamérica



Hoje vou tratar do tema, pegando um viés macro, a fim de apontar algumas variáveis sociais que colaboram para o agravamento das dificuldades individuais. Uma delas se  relacionada com o momento político-social que vivemos atualmente: o contexto neo-liberal resgata a gênese do capitalismo,  e propaga o individualismo em forma de competitividade.

O filósofo Bauman (2007) na sua obra “Vida Líquida”, ao tratar deste momento sócio-histórico aponta que:

O solo sobre o qual nossas expectativas de vida têm de se apoiar é reconhecidamente instável – tal como nossos empregos e as empresa que os oferecem, nossos parceiros e redes de amizade, a posição que ocupam na sociedade e a auto-estima e autoconfiança dela decorrentes. O “progresso”, que já foi a mais extrema manifestação de otimismo radical, promessa de felicidade universalmente compartilhada e duradoura, deslocou-se para o pólo de previsão exatamente oposto, não-tópico e fatalista. Agora significa uma ameaça de mudança inflexível e inescapável que pressagia não a paz e o repouso, mas a crise e a tensão contínuas, impedindo qualquer momento de descanso; uma espécie de dança das cadeiras em que um segundo de desatenção resulta em prejuízo irreversível e exclusão inapelável. Em vez de grandes expectativas e doces sonhos, o “progresso” evoca uma insônia repleta de pesadelos de “ser deixado para trás”, perder o trem ou cair da janela de um veículo em rápida aceleração. Incapazes de reduzir o ritmo espantoso da mudança, muito menos de prever e controlar sua direção, nós nos concentramos no que podemos ou acreditamos poder, ou no que nos garantem que podemos influenciar: tentamos calcular e minimizar o risco de nós pessoalmente, ou das pessoas que atualmente nos são mais próximas e mais queridas, sermos atingidas pelos incontáveis e indefiníveis perigos que o mundo opaco e seu futuro incerto nos reservam. (pp. 91- 92)

Em conseqüência, este “progresso” citado pelo autor trouxe um contexto marcado pela competitividade em diversos âmbitos sociais: 

  • No trabalho - onde os indivíduos geralmente correm contra o tempo para garantir o sustento. Existe uma necessidade imperiosa de dar o máximo para garantir o mínimo.
  • Nos ambientes acadêmicos - desde a pré-escola até a livre docência, os indivíduos são avaliados por sua "competência acadêmica". Não importa muito sua força de vontade, seu desejo de saber, nem seus limites, mas sim a nota que irá constar no seu histórico. 
  • Nas redes sociais - é frequente constatar que algumas pessoas não medem esforços para serem notados. Para conseguir este intento exibem pequenos triunfos, pequenas aquisições, pequenas alegrias, ou muito sofrimento. 
  • Nos relacionamentos familiares - as disputas familiares são marcadas pela competição por afetividade. É comum presenciar indivíduos disputando acirradamente a atenção de outro membro da família, ou mesmo alguns bens materiais.

Esta competitividade em praticamente todos os contextos sociais, conduz automaticamente à dificuldade de relacionamentos, uma vez que os indivíduos desconfiem uns dos outros, e sejam levados a se encarar como se fossem adversários. O momento é marcado pelo consumismo e preconceitos de toda natureza, onde toda e qualquer tentativa de autenticidade é vista como indício de loucura ou de insubordinação.


Neste cenário competitivo, algumas pessoas correm na busca de aceitação e para atingir este fim assumem o papel de “mercadoria”, tendo seu valor agregado àquilo que aparenta ser e àquilo que tem, e não aquilo que realmente é.  Para Bauman (2007) nesta “vida de consumo” os indivíduos (e as mercadorias) perdem sua utilidade e seu valor rapidamente “e portanto o viço, a atração, o poder de sedução e o valor enquanto são usados”. (p 17).


Sabe-se que o ser humano é um ser gregário, que depende de seus pares para sobreviver. Nossos ancentrais disputavam abrigo e alimento, e para garantir estas facilidades viviam em bandos. Aparentemente, na atualidade estamos vivendo o momento oposto: somos convocados a viver "cada um pra si", e ensinados a tirar do outro o pouco que tem. Sobre isto, Bauman (2007) salienta que:

Cada membro da sociedade individualizada encontra alguns obstáculos no seu caminho para a individualidade de fato. Essa não é fácil de conseguir, muito menos de preservar. Entre a rápida sucessão de fichas simbólicas de identidade comumente usadas e endêmica instabilidade das escolhas que recomendam, a busca da individualidade significa uma luta para toda a vida. (p.35)


Algumas pessoas, cuja sensibilidade para perceber ameaças é maior, podem atrofiar suas habilidades sociais, passando a viver em ostracismo, reduzindo seus relacionamentos ao mínimo. E agindo desta forma, imaginam que sua autonomia e sua individualidade estejam garantidas.

Infelizmente isto não condiz com a realidade. Nesta “vida líquida” ninguém está a salvo. Todos estão sujeitos a julgamentos, críticas, competições. Todos temos que correr contra o tempo, sem tempo para encontrar a nós mesmos. Nenhum homem é uma ilha. Temos que nos adequar para viver este momento social da melhor forma possível, buscando formas de relacionamento que aliviem a solidão e ao mesmo tempo garantam a individualidade, a privacidade e a autenticidade.


Bauman, Zygmund. Vida líquida. Tradução. Carlos Alberto Medeiros. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007



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